Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial. A enteropatia inflamatória crônica (EIC) engloba um conjunto de distúrbios gastrointestinais persistentes ou recorrentes, caracterizados por inflamação da mucosa intestinal. Diante da complexidade do tema e da publicação de diversas atualizações, o American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM) publicou um consenso em 2026 baseado nessas evidências para orientar […]

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial.
A enteropatia inflamatória crônica (EIC) engloba um conjunto de distúrbios gastrointestinais persistentes ou recorrentes, caracterizados por inflamação da mucosa intestinal. Diante da complexidade do tema e da publicação de diversas atualizações, o American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM) publicou um consenso em 2026 baseado nessas evidências para orientar os médicos-veterinários. O ACVIM recomenda o abandono do termo “Doença Inflamatória Intestinal (DII)” na medicina veterinária, a fim de evitar paralelos inadequados com a condição humana.
Outra mudança importante trazida pelo consenso é o posicionamento mais restritivo em relação ao uso de antibióticos. Historicamente, os antibióticos eram frequentemente utilizados como primeiro tratamento em cães com diarreia crônica. Entretanto, o ACVIM não recomenda o uso empírico desses medicamentos em pacientes com suspeita de enteropatia inflamatória crônica. Além da resposta frequentemente transitória, o uso inadequado de antibióticos pode contribuir para disbiose intestinal persistente.
O consenso recomenda que a realização de triagem dietética seja priorizada como primeira escolha para pacientes estáveis, reservando o uso dos antibióticos para situações específicas, e não como abordagem de rotina. O consenso destaca que entre 38% e 89% dos cães com EIC apresentam resposta favorável à intervenção nutricional (CIE-FR).
Por esse motivo, a realização de triagem dietética passou a ocupar posição central no diagnóstico da enteropatia inflamatória crônica canina. O consenso recomenda o uso de um alimento coadjuvante por pelo menos duas semanas, acompanhando a evolução clínica. Além disso, ressalta que a ausência de resposta a uma única dieta não exclui a possibilidade de resposta a um alimento de outro perfil nutricional, sendo frequentemente necessário em torno de três tentativas com diferentes alimentos antes da conclusão de que o paciente não responde à dieta.
Entre as opções disponíveis, os alimentos hidrolisados são normalmente os primeiros a serem indicados. Estudos citados no consenso reportaram taxas de remissão entre 64% e 89%, frequentemente observadas dentro das duas primeiras semanas de utilização. Do ponto de vista da prática clínica, os alimentos coadjuvantes com proteína hidrolisada de soja são opções viáveis. As proteínas são quebradas em peptídeos de baixo peso molecular, reduzindo a exposição do sistema imune intestinal a antígenos alimentares potencialmente desencadeantes do processo inflamatório.
Outra estratégia que pode ser empregada é o uso de alimentos com proteína nova. Essas formulações utilizam fontes proteicas às quais o animal provavelmente não foi exposto anteriormente, reduzindo a chance de reações adversas relacionadas ao alimento. Um inquérito nutricional bem detalhado é extremamente importante para verificar quais ingredientes proteicos o cão já ingeriu.
Nos pacientes que permanecem sintomáticos apesar dessas abordagens, as dietas elementares representam uma alternativa. Nesses produtos, a proteína é substituída por aminoácidos livres, minimizando praticamente por completo o potencial antigênico da dieta. Na prática clínica, alimentos coadjuvantes com proteína extensivamente hidrolisada de penas podem ser uma opção. Estudos recentes demonstraram resposta clínica em aproximadamente 70% dos cães que não haviam obtido controle adequado com outras estratégias nutricionais.
O consenso também reforça a importância das dietas com baixa gordura (low fat), particularmente nos casos de enteropatia perdedora de proteínas. A restrição lipídica reduz o fluxo de quilomícrons pelos vasos linfáticos intestinais, contribuindo para diminuir a perda de proteínas e favorecer o controle clínico desses pacientes.
Todos esses alimentos citados também devem apresentar elevada digestibilidade, a fim de favorecer a recuperação da mucosa intestinal.
Já nos cães com envolvimento predominante de intestino grosso, os alimentos com alto teor de fibras (high fibre) merecem atenção especial. Ingredientes fontes de fibra solúvel e prebióticos estimulam a produção de ácidos graxos de cadeia curta. Esses metabólitos desempenham papel importante na nutrição dos colonócitos, na integridade da barreira intestinal e na modulação da microbiota, estando associados à melhora clínica de pacientes com diarreia crônica de intestino grosso.
Embora diferentes categorias de dietas possam ser eficazes, o consenso enfatiza que não existe uma única abordagem adequada para todos os pacientes. A escolha deve considerar o histórico alimentar, o segmento intestinal acometido, a presença de enteropatia perdedora de proteínas, a condição corporal e a resposta às intervenções anteriores. A individualização do manejo nutricional continua sendo um dos principais fatores associados ao sucesso terapêutico.
A principal mensagem do consenso é que a nutrição deve ser encarada como parte fundamental do tratamento da enteropatia inflamatória crônica canina. Mais do que uma medida complementar, a dieta passou a ocupar posição de destaque tanto na investigação diagnóstica quanto no controle clínico da doença, permitindo reduzir a necessidade de medicamentos e proporcionando remissões duradouras em uma parcela expressiva dos pacientes.
Referência bibliográfica
Heilmann, R. M., et al. (2026). ACVIM–endorsed statement: consensus statement and systematic review on guidelines for the diagnosis and treatment of chronic inflammatory enteropathy in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine.
Fonte: Royal Canin
Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial. A enteropatia inflamatória crônica (EIC) engloba um conjunto de distúrbios gastrointestinais persistentes ou recorrentes, caracterizados por inflamação da mucosa intestinal. Diante da complexidade do tema e da publicação de diversas atualizações, o American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM) publicou um consenso em 2026 baseado nessas evidências para orientar […]
