Os pesquisadores analisaram 38 produtos alimentícios de 19 marcas diferentes comercializadas no Reino Unido, cobrindo desde opções econômicas até as linhas premium.

A poluição por plásticos deixou de ser um problema restrito aos oceanos e ecossistemas distantes. Um estudo científico pioneiro, publicado em maio de 2026 na prestigiada revista Environmental Toxicology and Chemistry, acendeu um alerta vermelho para tutores e veterinários ao revelar que os microplásticos estão amplamente presentes nas rações comerciais para cães e gatos.
Intitulado "Microplastic prevalence in commercially available petfoods", o artigo mapeou uma rota de contaminação biológica até então subestimada. A investigação foi conduzida por uma equipe multidisciplinar de cientistas de instituições britânicas de ponta: Emily Thrift e Fiona Mathews, da Universidade de Sussex; Tamara Galloway, da Universidade de Exeter; e David Santillo, dos Laboratórios de Pesquisa do Greenpeace. Juntos, eles comprovaram que o plástico já faz parte da dieta diária dos nossos animais de estimação.
Para entender a dimensão do problema, os pesquisadores analisaram 38 produtos alimentícios de 19 marcas diferentes comercializadas no Reino Unido, cobrindo desde opções econômicas até as linhas premium. O resultado foi alarmante: 84% das marcas analisadas apresentaram contaminação por microplásticos em pelo menos uma de suas amostras, e 76% dos produtos individuais testaram positivo para a presença de polímeros sintéticos.
Um ponto crucial destacado pelo estudo é a relação entre o custo do alimento e o nível de contaminação. As linhas de ração classificadas como "econômicas" e os produtos que trazem em seus rótulos termos genéricos como "subprodutos e derivados de carne" apresentaram índices significativamente maiores de partículas plásticas do que as opções de categorias mais altas.
Uma das descobertas mais surpreendentes da pesquisa envolve a comparação entre os alimentos secos e úmidos (como sachês e latas). Embora a concentração de microplásticos por grama tenha se mostrado ligeiramente maior nas rações secas, são os alimentos úmidos que representam o maior risco de exposição diária para os animais.
Isso acontece devido a um fator puramente biológico e calórico. Como o alimento úmido possui uma densidade calórica menor por grama, os animais precisam consumir uma quantidade de massa muito maior para suprir suas necessidades energéticas diárias. Com esse consumo elevado, a ingestão absoluta de plástico dispara. Os cientistas estimam que um cão de grande porte (cerca de 35 kg), alimentado exclusivamente com sachês ou latas, pode acabar ingerindo uma média impressionante de 313 partículas de microplásticos todos os dias.
Os polímeros mais frequentemente encontrados nas amostras foram o poliéster, a poliacrilamida, o polietileno e o polipropileno, materiais amplamente utilizados nas indústrias têxtil e de embalagens. A preocupação central dos biólogos vai além dos danos diretos à saúde do pet, que corre o risco de sofrer com o acúmulo de toxinas nos sistemas gastrointestinal e endócrino. Há também um impacto ecológico severo envolvido.
Através das fezes dos animais domésticos, esses microplásticos retornam diretamente ao solo de quintais, praças e parques. Esse ciclo acaba contaminando a fauna silvestre local, afetando animais como os ouriços-cacheiros (hedgehogs), que frequentemente se alimentam de restos de ração deixados em áreas externas.
Diante desse cenário, o estudo termina com um apelo urgente para que os órgãos governamentais e as indústrias do setor de pet food implementem triagens rotineiras e estabeleçam limites máximos rigorosos para a presença de materiais sintéticos nos alimentos processados. Afinal, garantir a segurança do que vai ao prato dos nossos companheiros é, também, uma forma de proteger o meio ambiente.
Fonte: Texto feito com base no artigo "Microplastic prevalence in commercially available petfoods" publicado na Revista Environmental Toxicology and Chemistry.
Os pesquisadores analisaram 38 produtos alimentícios de 19 marcas diferentes comercializadas no Reino Unido, cobrindo desde opções econômicas até as linhas premium.
