Felinos: a inter-relação entre esterilização e obesidade

Por que o manejo nutricional precoce é decisivo em filhotes felinos?

setembro 2, 2026
14:50
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Imagem de StockSnap por Pixabay

Ana Elisa Amaral

Coordenadora de Comunicação Científica – Royal Canin do Brasil

A esterilização de cães e gatos, também conhecida popularmente como castração, é um procedimento muito difundido e requerido por boa parte dos responsáveis pelos pets. Médicos-veterinários atendem clientes e criadores que buscam esse procedimento para controle populacional e de doenças, para manutenção de linhagem genética das raças, para manejo comportamental (principal queixa dos responsáveis, especialmente em machos) e para evitar doenças reprodutivas relacionadas a não castração, como a piometra e os tumores de mama.

Através do respaldo de literaturas recentes, hoje já sabemos que castrar é ponderar os pontos negativos e positivos. Não há uma regra ou um protocolo único para todos os pacientes. É necessário olhar para o pet que atendemos no consultório como um indivíduo único, entendendo todas as variáveis possíveis que a castração ou a não castração pode trazer para a vida dele, e o melhor momento para ser feita. Torna-se essencial, dessa forma,  não só avaliar todas as variáveis que existem como raça, peso, estilo de vida e idade, mas também as necessidades dos responsáveis, colocando todos os pontos em um balança para verificar se as vantagens se sobrepõem às desvantagens. Essa análise se torna fundamental para tomadas de decisão mais conscientes.

Entre as principais vantagens listadas, destaca-se a influência positiva da castração na proteção contra a incidência de tumores de mama em gatas, quando castradas antes dos 12 meses; a redução de outros problemas ligados a reprodução; o controle do comportamento sexual (hormônio dependente); e o controle reprodutivo, quando não há interesse em reproduzir. Como desvantagens, são apontados riscos anestésicos e cirúrgicos; intercorrências pós cirúrgicas; e desequilíbrios hormonais que os tornam mais suscetíveis a algumas outras doenças, como obesidade, diabetes mellitus, hipotireoidismo, incontinência urinária, dermatopatias, artropatias e neoplasias.

A gonadectomia influencia em mudanças fisiológicas e comportamentais, e diversos estudos apontam a castração como fator de risco individual para a obesidade. Após a castração, há uma redução da taxa metabólica e uma remodelação no padrão cerebral de apetite, o que faz com que esses pacientes sintam mais fome e aumentem a ingestão de alimento. Esses fatores associados podem predispor o pet ao ganho de peso indesejado, o que é observado em alguns estudos que comparam as curvas de crescimento de filhotes castrados com as de filhotes inteiros, mostrando um ganho de peso mais acentuado e maior acúmulo de gordura nos animais que foram castrados.

A necessidade de ajuste da ingestão energética para a manutenção do escore de condição corporal (ECC) ideal foi observada tanto em gatas submetidas à castração precoce (antes dos 5,5 meses) quanto naquelas castradas na idade tradicional (entre 6 e 9 meses). Dessa forma, essa fase da vida representa uma importante janela de oportunidade para a implementação de estratégias de prevenção da obesidade felina.

Os mecanismos para evitar o ganho de peso de felinos castrados envolvem conversas efetivas entre o médico-veterinário e o responsável, o monitoramento do crescimento através do uso dos gráficos de crescimento (para mensurar possíveis impactos no peso corporal do gato), o estímulo para atividade física associado às mudanças no manejo alimentar, além do atendimento das necessidades energéticas, levando em consideração que o filhote ainda está em fase de crescimento.

Os filhotes devem receber uma dieta adequada à sua fase de vida. No varejo especializado, algumas marcas de pet food já disponibilizam alimentos nutricionalmente formulados para gatos filhotes castrados, com teor moderado de gordura para ajudar a limitar o ganho de peso sem comprometer a ingestão de proteínas, cálcio e fósforo para um crescimento saudável. Aumentar a ingestão de fibras e reduzir a ingestão energética, com um consumo ideal de proteínas de alta qualidade, ajudam a manter a massa magra e reduzem as chances de ganho de peso. A dieta adaptada associada ao ajuste da quantidade de alimento oferecido, torna-se estratégias fundamentais para manutenção do peso e do escore de condição corporal (ECC) ideal em filhotes castrados. Orientar o responsável a pesar o alimento em balança digital, reduz os riscos de superalimentação. Deve-se evitar a oferta de alimentos ad libitum, fracionando a quantidade diária de alimento recomendada em pequenas porções durante o dia. A utilização de brinquedos ou “food puzzles” pode ser útil para minimizar a velocidade de consumo do alimento. O aumento da atividade física é interessante para evitar a restrição de alimento muito severa.

Para o sucesso da prevenção da obesidade em filhotes da espécie felina, torna-se fundamental o entendimento das particularidades fisiológicas e genéticas de cada paciente, considerando os fatores extrínsecos de maior impacto para a vida dele, o ambiente em que ele vive, o estilo de vida, o nível de atividade e o conhecimento do que ele come.

O médico-veterinário e sua equipe são peças-chave para conscientização e educação dos responsáveis sobre os cuidados com a alimentação após a castração. Deve-se incluir como parte da rotina dos responsáveis cuidados preventivos como o monitoramento do peso, a identificação correta do escore de condição corporal e o acompanhamento do médico-veterinário para possíveis ajustes nas quantidades de alimentos.

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