Tutores de paciente com câncer são mais preocupados com a alimentação de seus pets?

A médica-veterinária, doutora Simone Crestoni Fernandes, afirma que os tutores de pacientes oncológicos têm muitas dúvidas e preocupações com relação a nutrição e, mesmo com boas intenções, podem prejudicar o tratamento sem orientação especializada

outubro 2, 2023
14:12
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Sumário

Por Mariana Perez, da redação

Os animais de companhia hoje, principalmente cães e gatos, ocupam um espaço especial nos lares no mundo todo. E com isso a preocupação com a saúde e alimentação deles é maior. Estudos realizados na Inglaterra, Estados Unidos e Canadá mostram que tutores de pacientes com câncer ficam ainda mais preocupados com a alimentação e suplementação de seus pets. E com a ideia de que uma alimentação natural seria mais benéfica, alguns tutores mudam a dieta de seus animais com câncer para dietas naturais sem orientação profissional, com uma boa intenção, mas que pode prejudicar muito o tratamento e recuperação de um animal já debilitado.

A médica-veterinária, doutora em oncologia Simone Crestoni Fernandes, do Instituto de Oncologia Veterinária (IOVET), de São Paulo (SP), destaca um desses estudos, uma pesquisa global online: Unconventional diets and nutritional supplements are more common in dogs with cancer compared to healthy dogs: An online global survey of 345 dog owners (Dietas não convencionais e suplementação são mais comuns em animais com câncer se comparado a animais saudáveis). Dra. Simone conta que esse comportamento dos tutores é visível na rotina. “Muitos tutores me perguntam sobre a alimentação e fazem perguntas como: se a ração pode ter influência no aparecimento do câncer? Que tipo de suplemento o animal pode tomar? Entre outras”.

Simone Crestoni Fernandes, médica-veterinária, doutora em oncologia, do Instituto de Oncologia Veterinária (IOVET), de São Paulo (SP). Siga: @iovet_sp

Na medicina veterinária há pouca literatura sobre a relação nutrição e oncologia. E por conta disso, Dra. Simone destaca que começou a estudar mais o assunto. “Comecei a estudar nutrição oncológica na medicina humana que há mais estudos e consigo utilizar algumas informações para na veterinária. São necessidades alimentares muito diferentes, mas conseguimos trazer parte desse conhecimento para os animais de companhia. Na medicina veterinária muita coisa ainda não está estabelecida”.

Contudo, Dra. Simone enfatiza que é preciso mostrar ao tutor a importância de uma alimentação balanceada. “A ração industrializada é muito estudada, balanceada e feita por empresas sérias. Com o aumento do consumo de ração, hoje conseguimos evitar inúmeras doenças. O grande problema nutricional hoje é a alimentação natural feita sem a orientação de um veterinário especializado”.

Outro ponto que preocupa e que gera muitas dúvidas nos tutores, de acordo com a Dra. Simone é a suplementação de nutracêuticos. “Muitas pessoas começam a alimentação natural sem a suplementação necessária. Um colega veterinário clínico recentemente me enviou o raio x de um cachorro que começou a ter dor óssea e me perguntou se poderia ser câncer. Havia vários pontos do osso que estavam quase transparentes. Eu respondi que não parecia ser tumor e pedi para que ele perguntasse ao tutor como era a alimentação do cão, se era alimentação caseira e se ele fazia suplementação de vitamina D. Era exatamente isso, o paciente comia alimentação natural sem suplementação adequada. Ao fazer o exame de concentração sérica, vimos que a vitamina D estava quase zerada. Foi só repor a vitamina D que ele voltou a ter a implantação do cálcio no osso. Essa era uma doença que já não se via mais, pois há a quantidade certa de vitamina D na ração”.

Dra. Simone explica que, diferente do ser humano que tem o precursor de vitamina D na pele, cães e gatos não têm esses precursores na pele e a síntese pelo sol não acontece, sendo necessária a suplementação via alimentação. Por outro lado, o excesso de vitamina D também pode ser muito prejudicial. “Se o paciente receber mais do que o necessário, podem ocorrer danos muito graves, como hipercalcemia, por conta da interferência da vitamina D no metabolismo do cálcio, que por sua vez pode causar insuficiência renal, arritmia cardíaca. É preciso verificar a concentração sérica e só suplementar se estiver deficiente”.

A falta de estudos na área torna ainda mais necessário o cuidado com a suplementação. “O que me preocupa é que as pessoas suplementam e não sabem a dose e quando suplementar. Eu já vi farmácias de manipulação passando em clínicas falando de fórmulas prontas para pacientes oncológicos. A questão é que não temos estudos com dosagem estabelecidas para todos os nutracêuticos para cada caso e espécie”.

O que mais há estudos, segundo Dra. Simone é o ômega 3, que tem uma ação anti-inflamatória, principalmente na fração do EPA (Ácido eicosapentaenoico), que ajuda muito na caquexia neoplásica. Na medicina humana há muitos estudos clínicos que mostram pacientes oncológicos que voltaram a ter apetite e ganharam mais massa magra. Já com relação ao de DHA (Ácido docosahexaenoico) do ômega 3, que tem ação antitumoral, os estudos são em células e não há comprovação clínica ainda. “Contudo o ômega 3 não tem efeitos colaterais que possam interferir no tratamento oncológico”.

Consequências da má nutrição para pacientes oncológicos  

Os cuidados nutricionais de uma paciente com câncer são ainda mais complexos. De acordo com a Dra. Simone, a própria doença causa desnutrição. “A célula tumoral tem um metabolismo muito mais acelerado que acaba tirando energia do corpo. A alimentação desse paciente precisa ser muito bem balanceada e, em muitos casos, aumento nas calorias. É preciso pensar melhor nos carboidratos e utilizar os mais complexos. Além disso, um paciente com câncer muitas vezes não tem apetite ou fica enjoado com frequência, então é preciso usar alimentos mais calóricos e palatáveis, para aproveitar o máximo do pouco que ele coma. Em alguns casos é necessário utilizar a sonda alimentar por algum tempo, até que o paciente volte a se alimentar sozinho. Ficar muito tempo sem comer pode trazer sérias consequências e gatos, por exemplo, não podem ficar mais de 24 horas sem comer, pois podem desenvolver a lipidose hepática”.

Na rotina os oncologistas veterinários acabam estudando um pouco sobre nutrição para poder mostrar ao tutor a importância de consultar um veterinário nutricionista e fazer um tratamento em conjunto. “É muito importante que esse paciente esteja em uma boa condição corporal para poder receber os tratamentos. Se ele estiver desnutrido, qualquer tratamento que fizer será muito mais tóxico e não conseguirá ter uma resposta favorável”.

De acordo com Dra. Simone, as consequências para um paciente oncológico que não está bem alimentado ou desnutrido são muitas como: a quimioterapia pode ser mais tóxica e com mais efeitos colaterais, a resposta ao tratamento é mais lenta, aumenta tempo de internação, aumenta os riscos de infecções secundárias, imunidade baixa, cicatrização. “Por isso a importância de um acompanhamento nutricional especializado”, finaliza.

Simone Crestoni Fernandes ministrou palestra sobre “Como a nutrição pode interferir no paciente com câncer?”, durante o Oncovet XII, realizado em setembro pela Associação Brasileira de Oncologia Veterinária (Abrovet) em Natal (RN)


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câncer ∙ nutriçãoclínica ∙ oncologiaveterinária

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