Sintomas respiratórios: qual o diagnóstico diferencial?

Descobrir o que está por trás dos sintomas respiratórios de cães e gatos pode ser um desafio para médicos-veterinários. E para falar sobre o sistema respiratório e as afecções obstrutivas das vias aéreas em cães e gatos foi realizado o primeiro Simpósio Internacional sobre o tema, em Curitiba (PR), além de dois dias de cursos práticos sobre a colocação de stent para traqueia, brônquio e nasofaringe

junho 1, 2023
09:00
Compartilhe esta publicação:

Sumário

Por Mariana Vilela, de Curitiba (PR)

Muitas patologias que envolvem o sistema respiratório podem afetar a qualidade de vida de cães e gatos e, em alguns casos, afetar seriamente a saúde e levar ao óbito. As doenças respiratórias obstrutivas são caracterizadas pelo aumento da resistência ao fluxo aéreo devido a obstrução parcial ou completa em qualquer nível do sistema respiratório. O colapso de traqueia é um dos principais responsáveis por obstrução das vias aéreas em cães e gatos, mas não é o único, e pode levar a diagnósticos diferenciais equivocados na rotina.

“O sistema respiratório pode ser um grande desafio para os médicos-veterinários”, quem afirma isso é a médica-veterinária mestre e doutora na área de pneumologia, Mariana Pavelski, durante palestra ministrada no “I Simpósio Internacional de Afecções Obstrutivas das Vias Aéreas em Cães e Gatos e Tratamentos Minimamente Invasivos”.

Mariana Pavelski, médica-veterinária mestre e doutora na área de pneumologia

O simpósio foi realizado nos formatos on-line e presencial em Curitiba (PR), no dia 19 de maio, organizado pela Tradevet e Oncovet Cursos, e fez parte do Interventional Radiology Boot Camp*, um evento de três dias focados em procedimentos minimamente invasivos, que além do simpósio, contou com dois dias de cursos práticos, que foi ministrado pelo médico-veterinário norte americano, doutor William Culp, professor na Universidade da California, em Davis, nos Estados Unidos (University of California, UC Davis), que mostrou aos alunos a técnica de colocação do stent em traqueia, brônquio e nasofaringe.

Dr. William Culp, médico-veterinário norte americano, professor na Universidade da California, em Davis, nos Estados Unidos

A implantação do stent na medicina veterinária já é feita há alguns anos no Brasil, mas por um número ainda pequeno de veterinários e, de acordo com a Dra. Mariana, há um número grande de pacientes que requerem esse procedimento na rotina. “Por isso a importância de difundir esse conhecimento, pois quanto mais profissionais capacitados, melhor para os pacientes”.

Não esqueça o básico

A triagem do paciente respiratório foi o primeiro tema abordado pela Dra. Mariana durante o simpósio que destacou sobre a importância de fazer uma boa anamnese. “É importante começar a consulta pelo simples, o básico que aprendemos lá na faculdade. Há coisas que são tão simples, mas não levamos em consideração na rotina. Muitos profissionais acham que é muito básico falar em anamnese e sobre o histórico do paciente, mas é justamente aí que se vê um número maior de erros. Muitos veterinários partem logo para o resultado de exame e interpretam aquele resultado como sendo a causa do sintoma daquele paciente. Mas o que está no exame pode não ser a causa do sintoma. Por isso é muito importante conversar com o tutor e avaliar o paciente. Hoje temos acesso a exames fantásticos com muita tecnologia, mas não podemos esquecer o básico que nos leva para o caminho correto”.

Saber quem é o paciente é o primeiro passo para encontrar o diagnóstico diferencial. “Aquela história de que o paciente mais velho é mais predisposto de ter, por exemplo, doenças neoplásicas, e o mais jovem mais predisposto a ter doenças infecciosas, são coisas simples, mas que precisamos lembrar na rotina. Um exemplo clássico é um paciente da raça spitz alemão, com oito meses de idade apresentando tosse. Qual o primeiro diagnóstico diferencial? Tenho que pensar em complexo respiratório infeccioso. Colapso de traqueia não é um diferencial nesse caso. Ele tem oito meses de idade e a traqueia está terminando de se desenvolver. Pode ser que o paciente nasceu com uma deformidade na traqueia? Pode, mas é raro. O colapso de traqueia não é um diagnóstico diferencial nessas características que descrevi como exemplo, mas infelizmente temos visto na rotina muitos colegas dando esse diagnóstico”, exemplifica Dra. Mariana.

Outro ponto importante que Dra. Mariana destaca é prestar atenção no que o tutor está querendo dizer quando descreve sintomas, pois alterações como tosse, engasgo, espirro podem parecer iguais para um leigo. “Se o tutor diz que o animal está com falta de ar, será mesmo que é falta de ar? É um leigo falando. Então, é importante perguntar ao tutor o que o animal faz quando está com falta de ar. Temos que saber reconhecer esse sinal clínico e explicar para nosso cliente”. Dra. Mariana explica que há uma lista grande de diagnósticos diferenciais quando falamos em afecções respiratórias, contudo é preciso lembrar das principais causas e saber quem é o paciente para poder chegar a uma conclusão. “Os sintomas respiratórios são muito parecidos, seja quando se trata de obstrução em nasofaringe, traqueia ou brônquios. Por isso é muito importante todo aquele detalhamento na anamnese que mencionei para chegar à essa etapa do diagnóstico diferencial de forma mais assertiva”, ressalta.    

Interventional Radiology Boot Camp

O evento recebeu 35 pessoas no presencial e 150 no on-line, incluindo veterinários de todo o Brasil e de outros países como Paraguai e Argentina. A médica-veterinária de Blumenau (SC), Ana Lúcia Pasquali, que atua na área de cirurgia geral e oftalmologia, esteve presente em Curitiba e ficou muito satisfeita com o conteúdo, tanto do simpósio, quanto do curso que foi o mais esperado pelos participantes.

Ana Lúcia Pasquali, médica-veterinária de Blumenau (SC) que participou presencialmente do evento

Para o médico-veterinário de São Paulo (SP), Franz Yoshitoshi, o evento superou as expectativas. “Fui muito bem recebido, houve uma preocupação da organização com relação aos participantes”, destaca. Franz participou do simpósio e do curso, e há 26 anos trabalha com endoscopia e já realiza implantes de stent. “Estamos sempre aprendendo com os colegas e por mais que eu já faça na rotina a implantação de stent, a minha experiência é diferente dos colegas e temos cases diferentes. Nesse sentido vamos em busca de um detalhe que enriquece muito. Se eu aprender algo que eu não estou fazendo, algo que eu não percebi, já é um grande ganho. O que queremos fazer é proporcionar longevidade com qualidade de vida ao paciente”.

Franz Yoshitoshi, médico-veterinário de São Paulo (SP)

De acordo com o médico-veterinário Robson Pasquale, sócio proprietário da Tradevet, o objetivo da empresa é, além de facilitar o acesso e oferecer o produto de qualidade ao veterinário, levar conhecimento de como utilizar na rotina os novos recursos disponíveis. Muitos profissionais querem ter contato com o produto e aprender a manusear antes de comprar e utilizar na rotina. E foi isso que propôs o curso, onde os veterinários puderam aprender a técnica com um profissional especialista no assunto e mexer no produto sem medo. O modelo de stent utilizado no curso é uma novidade no Brasil, importado pela Tradevet da Coreia do Sul e, segundo Robson, está disponível para o mercado veterinário brasileiro que pode comprar com condições mais acessíveis. 

Robson Pasquale, médico-veterinário, sócio proprietário da Tradevet, ao lado de sua esposa Luciana Pasquale, também da Tradevet

Durante o curso prático de stent, os participantes aprenderam a colocar stents em traqueias, brônquios e nasofaringes. Para o professor norte-americano Dr. William Culp, que ministrou palestras no simpósio e os cursos práticos, todo o evento foi muito bem-organizado, com laboratório prático e realista, além de participantes excepcionais. “Todos estavam muito interessados ​​em aprender e compartilharam seus conhecimentos, o que permitiu uma excelente experiência de aprendizado. Dr. Pasquale e sua equipe foram organizados e gentis, e proporcionaram um aprendizado incrível para todos os envolvidos”.

A seguir fotos do curso prático com o Dr. William Culp:

Crédito fotos: Divulgação


TAGS
colapsodetraqueia ∙ pneumologia ∙ sintomasrespiratórios ∙ stent

Retrospectiva 10 anos

A revista Vet&Share é uma publicação que tem como objetivo levar conteúdo de qualidade para o médico-veterinário de animais de companhia. Informações e notícias que vão além da técnica médica-veterinária

Ressonância magnética de alto campo

Quais as aplicações e benefícios para a medicina veterinária? As imagens de alta qualidade e em diferentes planos anatômicos permitem visualização detalhada das estruturas internas do corpo do paciente, o [...]

Oncologia veterinária humanizada

Duas oncologistas veterinárias destacam os desafios da especialidade. Renata Sobral, da Capital Paulista, fala sobre como equilibrar a saúde mental do veterinário, sem deixar de oferecer 8atendimento humanizado aos tutores [...]

A nova geração da nefrologia veterinária

Determinada e com brilho nos olhos, a médica-veterinária Laura Pimentel fala sobre sua rotina na especialidade, sua busca por novas técnicas que possam beneficiar seus pacientes e a importância de [...]

Sintomas respiratórios: qual o diagnóstico diferencial?

Descobrir o que está por trás dos sintomas respiratórios de cães e gatos pode ser um desafio para médicos-veterinários. E para falar sobre o sistema respiratório e as afecções obstrutivas das vias aéreas em cães e gatos foi realizado o primeiro Simpósio Internacional sobre o tema, em Curitiba (PR), além de dois dias de cursos práticos sobre a colocação de stent para traqueia, brônquio e nasofaringe

julho 20, 2023
09:00

Leia a Vet&share sem limites.
Libere agora seu acesso

Editora Share Publicações
Segmentadas Ltda
Redes sociais
vetshare@vetshare.com.br
Curitiba - PR
2024 Editora Share © CNPJ: 24.039.946/0001-20